Quinta-feira, Junho 22, 2006
Segunda-feira, Maio 22, 2006
De mãos dadas

«Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e, dotados como são de razão e consciência, têm de comportar-se uns com os outros com espírito fraternal.»
Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos do Homem
O toque anunciou o fim da aula.
Os alunos precipitavam-se a arrumar os livros nas mochilas e a correr para a música que já soava lá fora. Entre o apagar do quadro e o «Até amanhã professora», sempre alguém se deixava ficar para trás. Uma dúvida que a timidez não deixara colocar, ou uma questão pessoal que exigia privacidade.
Os canteiros, bem cuidados e floridos, eram ofuscados pelas gargalhadas e beijos dos adolescentes enamorados.
O corredor, entre blocos, até à sala de professores, parecia uma porta para um túnel no Tempo. Como num vórtice, em câmara lenta, rodopiavam à sua volta rostos estranhamente familiares.
Voltou à sua adolescência, aos intervalos que davam sentido aos dias, às filas intermináveis para comprar um cachorro quente, ao ar maternal das funcionárias, que a todos tratavam por «meu filho», e às lentes de fundo de garrafa do seu professor preferido.
Entre os croissants com fiambre e as latas de sumo adivinhava frases que não ouvia, assaltada por memórias que invertiam o normal sentido dos ponteiros do relógio.
A silenciosa fila, na escola primária, para receber os pacotes de leite com sabor aguado. O pão com queijo que um ou outro menino retirava da sacola, perante o olhar esfaimado dos que nem livros tinham.
Passava-se fome, lá na aldeia. O alcoolismo era transmitido, de pais para filhos, como a possível herança.
Sentiu de novo o sabor adocicado do pão com marmelada que a professora retirava de um saco de pano. Era do magro salário que inventava, em cada manhã, uma dúzia de sandes. Para muitos dos seus meninos de olhos tristes era a única refeição do dia.
O barulho das conversas cruzadas na sala de professores empurrou-a de volta até ao presente.
«Professora, um dos nossos meninos não tem dinheiro para almoçar. Como vamos resolver isto?»
Os rostos da sua infância misturavam-se com os destes jovens seus alunos.
«A Liga resolve o problema.»
A Liga Dos Amigos da ESAC é uma instituição, sem fins lucrativos, criada por um grupo de professores e funcionários da Escola Secundária Augusto Cabrita, no Barreiro. Os objectivos a que se propõe podem resumir-se ao simples lema de «Ajudar os desfavorecidos», sejam eles alunos, funcionários ou professores. Direccionada para a comunidade em que está integrada, privilegia, no entanto, a comunidade escolar.
O que começou por ser uma junção de esforços, de várias pessoas, em prol dos carenciados, é hoje uma Associação legalizada e com nome reconhecido em Diário da República. Tendo por princípio o voluntariado, este grupo de pessoas realiza várias campanhas para angariação de fundos, que vão desde as «Feiras da Ladra» até à confecção de doçaria.
A próxima acção reveste-se de um carácter de extrema importância, não só para os alunos mais desfavorecidos, como para a promoção do espírito fraternal entre os jovens, ou ainda a protecção do meio ambiente. A recolha de manuais usados para serem posteriormente redistribuídos àqueles cuja situação financeira familiar não lhes permite a verdadeira democratização na Educação e no Ensino.
Um manual usado, que normalmente vai parar ao Papelão, converte-se num acto de fraternidade e de cidadania, no alcance de uma sociedade mais justa e igualitária.


